Ekatierina Ivânovnna

Esse blog é um pouco do que eu sou, o meu pensar. É também uma homenagem à arte da pintura, da música e da literatura. Como Ekatierina Ivânovnna, assino o nome dessa personagem de Dostoiévski,autor do fabuloso "Crime e Castigo",uma mulher de família relativamente próspera, mas que caiu na pobreza. Não assemelho-me a ela em suas condições sociais e morais, mas mesmo assim, entrego-me ao autor, nos braços da palavra profundamente humana e subjetivamente filosófica de Dostoiéviski...

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Uma mulher

Wednesday, April 26, 2006


Seu marido, alcoólatra, morre atropelado e, conforme o costume da época, ela oferece um repasto em memória do defunto. Mesmo na miséria, doente, com três filhos para criar, sem renda alguma e dependente de caridade, Ivânovna gasta boa dos vinte rublos, que recebeu como ajuda para os preparativos do funeral, para preparar o banquete cerimonial e mostrar aos seus convidados que o falecido, e também ela, não eram de classe inferior a eles, mas até mesmo superior.
Dostoiévski chama a atenção para este orgulho especial, que leva as pessoas, ainda que pobres, a “esgotarem as suas últimas forças e até o último copeque apenas com o fim de não fazerem pior que os outros e de que os outros não façam má opinião acerca deles”. (2003: 351) Por que esta necessidade de manter as aparências? Seria o receio da desaprovação ou o auto-engano de parecer superior aos outros?
Esta necessidade é tão antiga quanto as sociedades humanas: nos impérios antigos, nas cortes e entre os burgueses, na classe média moderna ou qualquer grupo humano privilegiado, estabelecem-se costumes, comportamentos e rituais específicos que indicam distinção. No século XVI, Montaigne observava que:
“Seja o que for, artifício ou natureza, isso que nos imprime a condição de viver da comparação com outrem, faz-nos muito mais mal que bem. Privamo-nos daquilo que nos é útil para atender às aparências e à opinião dos outros. Não nos importa tanto saber o que é nosso ser em si e em efeito quanto saber o que é ele para o conhecimento publico. As próprias riquezas do espírito e a sabedoria nos parecerão infrutíferas se só forem desfrutadas por nós, se não forem produzidas para a vista e a aprovação alheia”. (1998: 19)

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