Ekatierina Ivânovnna

Esse blog é um pouco do que eu sou, o meu pensar. É também uma homenagem à arte da pintura, da música e da literatura. Como Ekatierina Ivânovnna, assino o nome dessa personagem de Dostoiévski,autor do fabuloso "Crime e Castigo",uma mulher de família relativamente próspera, mas que caiu na pobreza. Não assemelho-me a ela em suas condições sociais e morais, mas mesmo assim, entrego-me ao autor, nos braços da palavra profundamente humana e subjetivamente filosófica de Dostoiéviski...

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Uma mulher

Monday, January 29, 2007


Por causa de Jandira
O mundo começava nos seios de Jandira.Depois surgiram outras peças da criação:Surgiram os cabelos para cobrir o corpo,(Às vezes o braço esquerdo desaparecia no caos.)E surgiram os olhos para vigiar o resto do corpo.E surgiram sereias da garganta de Jandira:O ar inteirinho ficou rodeado de sonsMais palpáveis do que pássaros.E as antenas das mãos de JandiraCaptavam objetos animados, inanimados.Dominavam a rosa, o peixe, a máquina.E os mortos acordavam nos caminhos visíveis do arQuando Jandira penteava a cabeleira...Depois o mundo desvendou-se completamente,Foi-se levantando, armado de anúncios luminosos.E Jandira apareceu inteiriça,Da cabeça aos pés,Todas as partes do mecanismo tinham importância.E a moça apareceu com o cortejo do seu pai,De sua mãe, de seus irmãos.Eles é que obedeciam aos sinais de JandiraCrescendo na vida em graça, beleza, violência. Os namorados passavam, cheiravam os seios de JandiraE eram precipitados nas delícias do inferno.Eles jogavam por causa de Jandira,Deixavam noivas, esposas, mães, irmãsPor causa de Jandira.E Jandira não tinha pedido coisa alguma.E vieram retratos no jornalE apareceram cadáveres boiando por causa de Jandira.Certos namorados viviam e morriamPor causa de um detalhe de Jandira.Um deles suicidou-se por causa da boca de JandiraOutro, por causa de uma pinta na face esquerda de Jandira.E seus cabelos cresciam furiosamente com a força das máquinas;Não caía nem um fio,Nem ela os aparava.E sua boca era um disco vermelhoTal qual um sol mirim.Em roda do cheiro de JandiraA família andava tonta.As visitas tropeçavam nas conversaçõesPor causa de Jandira.E um padre na missaEsqueceu de fazer o sinal-da-cruz por causa de Jandira.E Jandira se casouE seu corpo inaugurou uma vida nova.Apareceram ritmos que estavam de reserva.Combinações de movimento entre as ancas e os seios.À sombra do seu corpo nasceram quatro meninas que repetem As formas e os sestros de Jandira desde o princípio do tempo.E o marido de JandiraMorreu na epidemia de gripe espanhola.E Jandira cobriu a sepultura com os cabelos dela.Desde o terceiro dia o maridoFez um grande esforço para ressuscitar:Não se conforma, no quarto escuro onde está,Que Jandira viva sozinha,Que os seios, a cabeleira dela transtornem a cidadeE que ele fique ali à toa.E as filhas de JandiraInda parecem mais velhas do que ela.E Jandira não morre, Espera que os clarins do juízo finalVenham chamar seu corpo, Mas eles não vêm.E mesmo que venham, o corpo de JandiraRessuscitará inda mais belo, mais ágil e transparente. (Murilo Mendes)

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