Ekatierina Ivânovnna

Esse blog é um pouco do que eu sou, o meu pensar. É também uma homenagem à arte da pintura, da música e da literatura. Como Ekatierina Ivânovnna, assino o nome dessa personagem de Dostoiévski,autor do fabuloso "Crime e Castigo",uma mulher de família relativamente próspera, mas que caiu na pobreza. Não assemelho-me a ela em suas condições sociais e morais, mas mesmo assim, entrego-me ao autor, nos braços da palavra profundamente humana e subjetivamente filosófica de Dostoiéviski...

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Uma mulher

Sunday, April 30, 2006

O sentido da vida, de Viktor Emil Frankl

Frankl apostou no sentido da vida e na força cognoscitiva da mente individual. Apostou nos dois azarões do páreo filosófico do século XX, desprezados por psicanalistas, marxistas, pragmatistas, semióticos, estruturalistas, desconstrucionistas - por todo o pomposo cortejo de cegos que guiam outros cegos para o abismo. Apostou e venceu.[Olavo de Carvalho, O imbecil coletivo II. Rio de Janeiro: Topbooks, 1998, pp. 150.]

Pode-se dizer que Viktor Emil Frankl foi um bem-aventurado. Sobreviveu a uma das mais absurdas experiências a que seres humanos já foram submetidos por outros seres humanos, o campo de concentração. E como se isso não bastasse, ainda retirou dessa experiência todo um método terapêutico, a logoterapia. A partir da observação do cotidiano dos prisioneiros, entre os quais estava ele mesmo, foi capaz de erigir todo um sistema científico fundado em uma simples evidência empírica: o homem é capaz de manter viva a chama que o faz querer viver, mesmo diante das mais absurdas experiências de sofrimento e humilhação.Em busca de sentido é mais que um relato de atrocidades. É um esforço de compreensão psicológica da experiência do homem dentro do campo de concentração. O campo foi usado por Frankl como um cenário análogo ao da vida normal, mas exagerado até o limite do possível. Um lugar onde as pessoas sofrem de uma forma quase inimaginável e que, por isso mesmo, pode ser usado como uma prova fortíssima a favor da existência de um sentido na vida. Se o ser humano não fosse capaz de enxergar um sentido em sua vida para além de auto-ilusões criadas por sua mente, dificilmente haveria sobreviventes nos campos de concentração. É isso que Frankl quer mostrar: “O sentido da vida (...) é uma realidade ontológica, não uma criação cultural”. [Olavo de Carvalho, op. cit., pp. 148]

Mas vamos por partes. O depoimento de Frankl se divide em três etapas, correspondentes aos três estádios da vida psicológica de um prisioneiro: a recepção no campo, a vida propriamente dita no interior daquele ambiente e, finalmente, a fase posterior à libertação.A fase de recepção no campo é um desfazer-se de tudo, tanto de bens materiais como de esperanças de, por assim dizer, manutenção. O prisioneiro, pouco a pouco, vai percebendo que sua vida anterior acabou e que agora terá início uma outra, a da “existência nua e crua”. Ele não possui mais nada, apenas seu corpo e uns trapos de roupa. É submetido, uma a uma, a experiências progressivamente adversas e desenvolve um espírito de humor negro e de curiosidade fria acerca do que acontecerá em seguida. Curiosidade essa definida por Frankl como uma retração da alma para salvar-se em um outro lugar. A lição que se tira então é a de que o ser humano se acostuma a tudo, embora não se saiba exatamente como.Da primeira fase, salto à terceira, por motivos que se auto-evidenciarão mais adiante. Esta fase é a da vida após a libertação. Frankl observa que a reação do prisioneiro recém-liberto não é de alegria, como se poderia pensar, mas de lenta adaptação ao novo ambiente. As sensacões experimentadas vão da incrível amargura diante da indiferença dos outros em relação ao sofrimento vivido por ele no campo de concentração, até a decepção diante da constatação de que o sofrimento não tem um fim. O ex-prisioneiro descobre que pode-se sofrer também fora do campo, quando pensava que já havia sofrido o máximo que se pode conceber para uma vida humana. Mesmo tendo-se conscientizado, durante sua vida no campo, de que não há felicidade sobre a Terra capaz de compensar seu sofrimento, ainda assim ele não estava totalmente preparado para a infelicidade e precisa encará-la de frente.Da segunda fase é que Frankl extrai, como seria de se esperar, as mais importantes observações existenciais sobre o ser humano. Como resultado direto do ambiente em que está inserido, o prisioneiro do campo de concentração desenvolve dois sintomas: a apatia e a irritabilidade. A apatia é uma “dessensiblização do íntimo” face às experiências a que se submete, como o constante espancamento, as pequenas humilhações e o assistir ao espancamento de outros. Em meio à massa de pessoas e diante do tratamento brutal e desumano por parte dos guardas, perde-se a sensação de ainda ser sujeito humano e a vida psíquica recua a um nível primitivo, em que o sujeito passa a se preocupar apenas com pequenos eventos e necessidades momentâneas. Todo esse estado psíquico causa o anseio de submissão do prisioneiro às mãos do destino, tão cansado está ele de tomar - a todo momento - decisões que podem significar enormes sofrimentos (e até, naturalmente, a morte), como, por exemplo, se sobe ou não em um caminhão que pode tanto estar indo a um campo menos cruel como em direção ao extermínio.A partir dessas observações, entretanto, Frankl retira a constatação primordial de que, nos momentos mais adversos, o homem revela-se como um ser que está acima das determinações de seu meio. É certo que apenas uma minoria de prisioneiros se revelou capaz de superar as condições psíquicas impostas pelo ambiente e voltar-se para a vida interior que se apresentava como oportunidade a ser tomada. Mas ainda que fosse apenas um ser humano a fazê-lo, a constatação seria igualmente válida: existe um sentido e uma dimensão espiritual no ser humano, para acima de seus elementos psíquicos estruturantes. Desse modo, Frankl afirma a individualidade de cada ser humano e sua capacidade de exercer uma liberdade interior que se revela no encontro de um sentido para cada situação vivida, inclusive as de sofrimento mais absurdo. Isso significa dizer que cada ser humano tomado individualmente é que decide em que vai-se transformar interiormente diante das situações que vive. É esse o significado mais profundo de liberdade e, ao mesmo tempo, a mais bela prova de que existe um sentido para a vida. Em última instância,
aquilo que sucede interiormente com a pessoa, aquilo em que o campo de concentração parece ‘transformá-la’, revela ser o resultado de uma decisão interior. Em princípio, portanto, toda pessoa, mesmo sob aquelas circunstâncias, pode decidir de alguma maneira o que ela acabará sendo, em sentido espiritual: um típico prisioneiro de campo de concentração, ou então uma pessoa humana, que também ali permanece sendo ser humano e conserva a sua dignidade.[Viktor Frankl, Em busca de sentido: um psicólogo no campo de concentração. Petrópolis: Editora Vozes, 1991. pp 67]

O que há de mais interessante nessa constatação de Frankl de que o homem está acima de seu meio é o fato de que ele não a alcançou através de uma teoria. Sua prova é empírica. A dimensão ontológica do sentido da vida é um fato empiricamente comprovado. Em outras palavras, a própria observação da vida dos homens no mundo mostra que o ser humano é naturalmente capaz de encontrar o sentido de sua vida, e isso já é prova suficiente de que esse sentido existe. Desse modo, Frankl “salta” a filosofia (mais particularmente a ontologia) e chega do outro lado para nos mostrar que a coisa é bem mais simples do que se poderia pensar. Ao mesmo tempo, desabam todas as formas coletivistas do conceito de liberdade, incompletas que são diante do sentido espiritual desse valor ético primordial.A liberdade se apresenta então, diante do destino, como a prova de que o sentido da vida estava a esperar por nós todo o tempo. Enquanto estávamos preocupados em perguntar à vida qual é o seu sentido, este se revela de modo oposto. A vida está a nos perguntar permanentemente. Ela espera algo de nós a todo momento. E espera o quê? Precisamente que tomemos uma decisão livre e responsável diante de cada situação que nos é dada. O sentido está em todo lugar, como possibilidade concreta. Nós não o fabricamos, apenas o descobrimos no momento mesmo em que realizamos nossa liberdade individual de escolher o que nos tornaremos a cada momento.Mas a liberdade diante do destino não consiste na realização de ações no mundo ou na insubmissão a esse destino. Não é disso que depende o sentido da vida.

Uma pessoa, diante da vida, pode encontrar sentido em qualquer situação, pois ela é chamada a isso: Em dado momento, a sua situacão concreta exige que ela aja, ou seja, que ela procure configurar ativamente o seu destino; em outro momento, que ela aproveite uma oportunidade para realizar valores de vivência (por exemplo, sentindo prazer ou satisfação); outra vez, que ela simplesmente assuma o seu destino. Mas sempre é assim que toda e qualquer situação se caracteriza por esse caráter único e exclusivo que somente permite uma única ‘resposta’ correta à pergunta contida na situacão concreta.[Viktor Frankl, op. cit., pp. 76]

Nestes tempos de revolução cultural em que vivemos, muitos perguntarão: mas é só essa a liberdade que temos? Sim e não. Algumas vezes sim e outras não. O fato é que as pessoas têm estado tão preocupadas em ser livres, que acabaram perdendo sua liberdade e se tornando escravas de uma busca inútil por algo que já se tem. Transformar o mundo pode parecer exercício de liberdade, mas a realidade é bem outra: quanto mais rapidamente transforma o mundo, menos liberdade tem o ser humano, pois acaba preso em um ciclo interminável de mudanças que passam a exigir outras em uma sucessão infinita de eventos. Diante do mundo das políticas revolucionárias e “libertadoras”, irmãs gêmeas da tecnologia e da competitividade a qualquer preço, só resta então o indivíduo como o percebeu Viktor Frankl, exercendo sua pequena grande liberdade, que é simplesmente o direito que ele tem - e que ninguém lhe pode tirar - de encontrar o sentido de sua própria vida.

Wednesday, April 26, 2006


É declarada a minha paixão pela arte e pela pintura em especial. Um dos meus preferidos é o impressionista Pierre Auguste Renoir. Seu tema principal foi a exploração da nudez feminina tão delicadamente exposta em seus traços. Essa abordagem, de certa maneira, o diferencia de outros pintores da época, uma vez que a figura humana posada parecia não agradá-los. Observando a tela Blond Nude do ano de 1882, nota-se a capacidade do pintor de capturar o momento, de forma que podemos até mesmo perceber na expressão da mulher, o frescor do vento batendo e dando movimento ao seu cabelo, ao mesmo tempo que nos fornece a direção do vento naquele tempo específico. A tela ressalta também contrastes de cores e luzes. A pele branca da mulher banhada ainda pelos últimos raios de sol, posto que parece ser um fim de tarde, e um fundo mais escurecido, destaca a figura humana que se mostra muito mais sólida, com contornos mais fortes e firmes. É importante notar o plano de fundo da pintura que, sem precisão dos contornos, impossibilita uma visualização concreta da provável paisagem que se esconde atrás da banhista.
Atendo-nos ao rosto da jovem, podemos destacar o olhar que parece estar voltado para um lugar bem tranquilo, visto que, através de seus olhos é possível sentirmos tal tranquilidade. Na realidade, a expressão facial na sua totalidade nos transmite serenidade e naturalidade. Note a consolidação das formas arredondadas que, sendo representadas de maneiras sólidas e corporificadas, trazem à telas de Renoir pinturas mais presentes e fisicamente sentidas.
É uma obra de uma beleza ímpar. Quanta beleza Renoir expressou através de seu olhar ?
Linda, era a mulher daquela época, que aceitava sem problemas as suas curvas e desatinos...


A maior parte das pessoas lê mal. Num país como o Brasil, em que a grande massa da população não chega sequer a completar o Ensino Fundamental, isso soa como um truísmo, mas aqui estamos nos referindo também aos felizardos que conseguiram chegar não apenas ao fim do Ensino Médio, mas até mesmo, e principalmente, ao Ensino Superior. Infelizmente, a posse de um diploma não é garantia de uma capacidade de leitura eficaz. Nossa estrutura educacional é falha, muito aquém do que seria preciso para realmente formar um cidadão, e isso vale tanto para o ensino público quanto para grande parte do particular. Além disso, em nossa cultura, ler ainda não é uma prioridade, o que se reflete no mercado editorial: a maioria dos livros têm baixas tiragens e demoram a vender, salvo um ou outro best-seller, geralmente de ficção. E como se não bastasse, o fato de alguém comprar um livro não significa que vá lê-lo de fato, e mesmo que o leia, não significa que vá entendê-lo tanto quanto a obra merece. Mas problemas nessa área não são exclusividade do Brasil, tampouco de países pobres. Baseio-me nas idéias do filósofo e educador da década de 70 Mortimer Adler, que orienta ao leitor, os caminhos a percorrer.

Nem sempre a distinção entre um tipo de leitura e outra é clara. Muitas vezes ela é muito tênue. Porém, grosso modo, podemos dizer que textos plenamente compreensíveis, como jornais, revistas, são essencialmente informativos. Não nos atordoam com a complexidade peculiar de quando ultrapassamos nossos limites. Por outro lado, sempre que lemos um texto que nos deixa, ao fim de uma leitura atenta, a sensação de que nã entendemos tudo, ele merece ser tratado como uma leitura compreensiva."Quais são as condições sob as quais esse tipo de leitura -- leitura para compreensão -- ocorre? Existem duas: primeira, há uma desigualdade inicial de compreensão. O autor deve ser 'superior' ao leitor em compreensão, e seu livro deve transmitir de uma maneira legível os conhecimentos que ele possui e que faltam aos seus leitores em potencial. Segunda, o leitor tem que estar habilitado a superar essa desigualdade em alguma medida, se não completamente, aproximando-se sempre do escritor. Na medida em que a igualdade é alcançada, a clareza na comunicação é atingida.Em resumo, só podemos aprender com nossos 'superiores', Devemos saber quem eles são e como aprender com eles. Quem possui esse conhecimento domina a arte da leitura no sentido que nos interessa neste livro. Qualquer pessoa que saiba ler provavelmente terá habilidade para, em alguma medida, ler desta forma. Mas todos nós, sem exceção, podemos aprender a ler melhor e, gradualmente, ganhar mais pelos nossos esforços, direcionando-os para textos mais recompensadores."Podemos resumir o que vimos até agora em uma única frase: A qualidade de uma leitura depende do esforço investido nela, pelo menos em se tratando de livros inicialmente acima de nossa capacidade e que por isso são capazes de nos levar à transição de um estado de entender menos para um estado de entender mais.

Para Adler existem quatro níveis de leitura. Repare que são "níveis" e não "tipos", porque os níveis mais altos absorvem os mais baixos. São eles, do mais baixo para o mais alto:

1. Leitura Elementar - corresponde ao nível ensinado na escola primária. A preocupação de quem lê nesse nível é com a linguagem em si, a decodificação da escrita, que com qualquer outra coisa. A pergunta que norteia esse nível é: "O que a frase diz?".

2. Leitura Averiguativa (também chamada de "pré-leitura" ou "garimpagem") - este nível é voltado para a melhor avaliação possível de um texto ou livro num período curto de tempo. Por exemplo, quando estamos de passagem por uma livraria, vemos um livro que parece interessante e precisamos saber se ele é bom antes de decidirmos se vamos comprá-lo. Existem alguns bons macetes para isso, dos quais trataremos mais adiante. Por ora, basta saber que a pergunta básica deste nível é: "Este livro é sobre o quê?".

3. Leitura Analítica - é a leitura completa, a melhor que se pode fazer, ativa por excelência. No dizer de Adler, "se a leitura averiguativa é a melhor que se pode fazer num determinado período de tempo, então a leitura analítica é a melhor leitura possível quando não existe limite de tempo". É um nível de leitura voltado basicamente para a compreensão, de modo que, se seu objetivo é apenas informação ou entretenimento, ele pode não ser necessário.

4. Leitura Sintópica ou Comparativa - implica a leitura de muitos livros sobre um certo tema, pondo-os em relação uns com os outros e com o tema. Estudantes de Ciências Humanas são obrigados a se familiarizar com ela. É o nível mais difícil de se alcançar, e não há pleno acordo sobre suas regras. Porém, é também o mais recompensador de todos os níveis.

Aqui trataremos apenas da leitura averiguativa e de algumas sugestões para a leitura analítica:

- Leitura averiguativa- Conforme já foi dito, este nível é na verdade uma pré-leitura, uma inspeção mais ou menos rápida de um material de que, por limitações de tempo, você não pode dar conta por inteiro ainda. Isso não significa que seja pouco útil, muito pelo contrário. Pessoas que têm uma grande carga de leitura, sejam profissionais ou estudantes, podem se beneficiar muito com o conhecimento de técnicas simples de leitura averiguativa. Afinal, mais que qualquer outra coisa, ela foi feita para poupar tempo e nem todo livro merece uma leitura analítica. Saber separar o joio do trigo é uma necessidade cada vez mais premente no mundo de hoje.Aqui vai uma lista de sugestões para uma boa garimpagem, divididas em duas fases para fins didáticos. A primeira tem como finalidade saber se o livro merece uma leitura mais atenta; a segunda, facilitar a leitura de um livro difícil:

-Pré-leitura propriamente dita:

Comece pela capa e pela folha de rosto. Muitos livros hoje têm títulos comerciais que não dizem nada sobre seu conteúdo, mas deixam uma pista no subtítulo. Veja o que ele diz, se houver um. Livros expositivos, de não-ficção, normalmente têm um. Também preste atenção ao nome do autor. Soa familiar? Existe alguma referência extra? Livros de autores de algum renome freqüentemente mostram ao lado do seu nome uma indicação do tipo "Autor de [nome de obra mais conhecida]". Também verifique a edição do livro; uma obra com várias edições e/ou reimpressões certamente é bem-sucedida e pode dar uma idéia da sua popularidade.

No verso da folha de rosto costuma ficar a ficha catalográfica do livro, com a notação bibliográfica e os tópicos que ele aborda. Isso é muito importante, especialmente quando se trata de livros de caráter mais acadêmicos. Por exemplo, na ficha catalográfica do excelente "A Educação dos Sentidos", de Peter Gay, editado pela Companhia das Letras, ficamos sabendo que o livro trata de:1. Classe média - História - século 19. 2. Sexo (Psicologia) - Aspectos sociais - século 19.

Ou seja, em uma ou duas linhas, ficamos sabendo que o livro trata da história dos aspectos sociais e da psicologia do sexo das classes médias no século 19. E ainda nem lemos uma única frase que realmente tenha sido escrita pelo autor.

Agora que você já sabe do que trata o livro, em linhas gerais, podemos passar aos detalhes -- o índice. É o mapa da estrutura do livro e há autores que se esmeram na sua confecção, especialmente quando se trata de ensaios e trabalhos acadêmicos. Obras antigas eram extremamente minuciosas nos seus índices, com títulos que chegavam a ser verdadeiras sinopses. Porém, hoje em dia, esse é um hábito que caiu em desuso, e os velhos índices analíticos muitas vezes dão lugar a índices com títulos misteriosos que mais parecem peças publicitárias. Ainda assim, você só vai saber se o índice é bom conferindo-o, então convém fazê-lo.

Além do índice tradicional, algumas obras contêm índices onomásticos ou remissivos nas suas últimas páginas. Ali estarão listados nomes e temáticas de forma específica, bem como as páginas onde são citados. É uma boa fonte para ter um panorama dos assuntos tratados pelo autor e pode ser útil usá-lo para identificar passagens potencialmente interessantes e fazer uma leitura rápida. Naturalmente, a importância de um assunto pode ser avaliada pelo número de vezes em que é citado e se isso acontece muitas vezes é possível que ele seja um dos pontos centrais do livro.

Leia a contracapa do livro. Algumas vezes contém trechos da introdução, em outras, como em livros americanos, referências elogiosas publicadas na imprensa. O mais provável, em se tratando de uma obra brasileira, é que você encontre uma sinopse do livro feita pela editora.

Leia a orelha. Livros mais recentes costumam trazer uma breve resenha da obra, assinada por alguém importante na área temática em questão, ou uma sinopse mais aprofundada que a da contracapa. Também é comum encontrarmos uma nota biográfica do autor: onde nasceu, suas credenciais acadêmicas e/ou profissionais, outras obras que tenha escrito. Isso é especialmente útil em obras de não-ficção.

Dê uma olhada na bibliografia, se houver. Ali você pode ter uma idéia da erudição da obra que tem em mãos, bem como ter referências sobre o mesmo assunto ou outros a ele relacionados. É até possível que encontre uma indicação que seja mais importante para o tema que o livro que tem ora em mãos. Cruzando os autores ali indicados com o índice onomástico, pode-se ter uma idéia de quais das obras listadas foram mais importantes para o autor do livro que você está examinando.

O livro contém apêndices? Obras históricas ou jornalísticas, por exemplo, costumam deixar a reprodução mais extensa de fontes documentais ou iconográficas para essa parte do livro. Também é freqüente encontrar estatísticas, tabelas, e outros dados que podem ser muito pesados para serem transcritos no corpo da obra. Às vezes, trata-se de uma abordagem mais profunda de subtemáticas muito específicas. Em todo o caso, se há apêndices, dar uma olhada neles pode ser crucial para sua decisão sobre o livro valer ou não a pena.

Folheie o livro. Leia alguns parágrafos, talvez duas ou três páginas, se o tempo permitir. Os últimos parágrafos de um capítulo muitas vezes contêm uma síntese do que foi abordado nos anteriores,e os do último capítulo -- não necessariamente o epílogo, quando existe -- podem conter uma síntese das idéias centrais do livro todo.

E, por último mas não menos importante, ao folhear o livro, veja se a estética o agrada. Isso pode ser irrelevante para obras recentes, com apenas uma edição disponível, mas pode fazer muita diferença para aquelas mais antigas ou clássicas, disponíveis em várias edições, por várias editores ou, no caso de autores estrangeiros, em várias traduções. A fonte utilizada torna a leitura agradável? A impressão é boa ou há falhas? A paginação está correta? A diagramação (organização dos blocos de textos na página) é bem feita? A encadernação é de boa qualidade ou o livro parece estar prester a soltar páginas? No caso da tradução, em se tratando de obras literárias ou mais técnicas, pode ser conveniente procurar uma referência antes.

Se toda tradução é uma traição, como dizia Voltaire, algumas traições são particularmente sórdidas e podem distorcer o pensamento do autor. Obras de filosofia e psicanálise vertidas do alemão, repletas de neologismos difíceis de traduzir para o português, por exemplo, costumam esbarrar nesse problema, como os leitores de Freud e Kant devem saber. A escolha da edição, nesse caso, se torna particularmente importante, especialmente quando algumas obras não são traduzidas do original, mas de outra tradução, geralmente inglesa ou francesa, e não raro antigas e "ajustadas" ao gosto da época.
Findas essas etapas, que constituem um tipo muito ativo de leitura, você já será capaz de dizer bastante coisa sobre o livro que tem em mãos, e se ele vale uma leitura analítica.

"Ninguém pode se educar inteiramente na escola, não importa quanto tempo permaneça lá ou quão boa ela seja". Por toda sua carreira como professor, Adler permaneceu devotado a ajudar aqueles de fora da academia a progredir com sua educação. Ninguém, independentemente da idade, deve parar de aprender, concordo com Adler.
Boa leitura !


Seu marido, alcoólatra, morre atropelado e, conforme o costume da época, ela oferece um repasto em memória do defunto. Mesmo na miséria, doente, com três filhos para criar, sem renda alguma e dependente de caridade, Ivânovna gasta boa dos vinte rublos, que recebeu como ajuda para os preparativos do funeral, para preparar o banquete cerimonial e mostrar aos seus convidados que o falecido, e também ela, não eram de classe inferior a eles, mas até mesmo superior.
Dostoiévski chama a atenção para este orgulho especial, que leva as pessoas, ainda que pobres, a “esgotarem as suas últimas forças e até o último copeque apenas com o fim de não fazerem pior que os outros e de que os outros não façam má opinião acerca deles”. (2003: 351) Por que esta necessidade de manter as aparências? Seria o receio da desaprovação ou o auto-engano de parecer superior aos outros?
Esta necessidade é tão antiga quanto as sociedades humanas: nos impérios antigos, nas cortes e entre os burgueses, na classe média moderna ou qualquer grupo humano privilegiado, estabelecem-se costumes, comportamentos e rituais específicos que indicam distinção. No século XVI, Montaigne observava que:
“Seja o que for, artifício ou natureza, isso que nos imprime a condição de viver da comparação com outrem, faz-nos muito mais mal que bem. Privamo-nos daquilo que nos é útil para atender às aparências e à opinião dos outros. Não nos importa tanto saber o que é nosso ser em si e em efeito quanto saber o que é ele para o conhecimento publico. As próprias riquezas do espírito e a sabedoria nos parecerão infrutíferas se só forem desfrutadas por nós, se não forem produzidas para a vista e a aprovação alheia”. (1998: 19)

Tuesday, April 25, 2006


Às vezes, eu penso que não pertenço à essa época. Eu queria me vestir assim. Imagine o glamour e o calor ! Haveria de viver ofegante, pois. Não por isso. Não temo em dizer que há pouco, eu nem sabia o que era realmente um blog, mas já estou aprendendo a escrever aqui. É preciso delicadeza para expressar sentimentos, paciência na busca da perfeição entre o pensar e o fazer. Muito treino e uma pitada de criatividade também. Aos poucos, as idéias virão, como as ondas do mar, as estrelas do céu estão me olhando, o que será que elas querem dizer ?